Do meu lugar no Paiol - Silvio de Tarso


De uns tempos pra cá, a cultura paranaense tem sido objeto do interesse dos nossos jovens artistas e pesquisadores. A custo, mas em tempo, os meios de comunicação local tem se voltado (ainda é pouco) à divulgação dos nossos valores culturais, ao nosso folclore, aos nossos artistas, os de outrora, e os novos que vão surgindo no cenário do chão-Paraná. Um exemplo concreto e ao mesmo tempo sublime destas investidas é a iniciativa de Lydio Roberto e Cris Lemos, músicos e produtores de arte locais, que levam ao Palco do Teatro Paiol uma parte da vasta lavra musical do grande pesquisador, folclorista e compositor Inami Custódio Pinto, no espetáculo Nhengarí Inami – A Arte do Poeta Popular.


O show é, ao mesmo tempo, uma homenagem, um resgate e um desafio. Homenagem mais do que merecida a quem tem dedicado toda a vida a pesquisar a cultura paranaense. Um resgate, porque refém de um esquecimento que precisa ser todos os dias combatido e evitado, as músicas, as pesquisas e as reflexões de Inami, tem andado, incompreensivelmente, mudas e invisíveis, no berço de suas expedições culturais. Um desafio porque, diante da grandeza do homenageado e de sua obra, o trabalho investe empenho, coragem e acima de tudo respeito e admiração.


E tudo isso está posto, num espetáculo de alto nível, alegre e emocionante. O show mantém o pulso do começo ao fim, na trilha do repertório que resume de maneira singela e nobre, a diversidade da inspirada criação do monumento chamado Inami. As músicas ricamente arranjadas são executadas pela competência de um time de músicos envoltos pela aura que emana do homenageado. Ricardo Janotto “Ô Rosinha”, na percussão, Hely Souza no baixo elétrico, Ary Jordani, no acordeão e na flauta doce, Marcio Silva e Glauber Carvalho nos violões, Dú Gomide, na rabeca, na viola caipira, guitarra e percussão, Lydio Roberto, que também assina a direção musical, violão e voz, e Cris Lemos, voz, emocionam e imprimem no público as digitais de uma identidade que, tal qual a obra de Inami, também precisa ser resgatada.


O show que remete a um sentimento de pertença a um bem, que anda por aí escondido da gente é um todo de emoção e delícia musical. Mas, há momentos de especial emoção e alegria. As aparições em vídeo de Inami Custódio Pinto, num cenário assinado com a capacidade conhecida e reconhecida de Jaqueline Daher, que confere ao trabalho um estado de oração, e a brejeirice e a leveza de uma Cris Lemos que une à cantora, doses encantadoras de atriz e dançarina são dois destes momentos.
Do meu lugar no Paiol assisti a um espetáculo, com a produção de Kátia Fontoura e roteiro de Jaqueline Daher, de uma unidade que expressa tudo ao que se propõe, sob a batuta de Lydio Roberto, ex aluno e ex-colega do professor Inami que, da primeira fila da platéia, ouvia, cantava e contemplava, um pouco do muito que, generosamente tem dedicado ao Paraná. E trouxe comigo uma certeza: Inami Custódio Pinto, construtor de um valiosíssimo patrimônio cultural do Paraná, é pela grandeza do seu significado, ele próprio, um patrimônio paranaense.


É muito bom que ele tenha recebido esta homenagem antes se chamar saudade.

Curitiba, 17 de abril de 2009
Silvio de Tarso